Citações de algumas passagens do livro: "A Ignorância Custa um Mundo - O Valor da Educação no Desenvolvimento do Brasil" de Gustavo Ioschpe
"Quem dera os problemas da educação brasileira fossem todos resolvíveis com dinheiro. Não são. Remediadas todas as ineficiências de gastos apontadas acima, restaria ainda a fonte do problema maior: a má qualidade de ensino, especialmente em seus primeiros anos" (p.191).
"Precisamos afunilar o foco e tratar de entender o que se passa nas salas de aula, quem são e o que pensam os atores da educação brasileira. Essa tarefa é possível graças a um primoroso livro de João Batista de Araújo e Oliveira e Simn Schwartzmann (2002, chamado A Escola Vista por Dentro, volume indispensável para quem deseja conhecer os meandros de nossa educação. . . . Para entender o fracasso educacional de nossas crianças, os autores buscam entender o que pensam pais e professores. Os resultados são estarrecedores" (p.191).
"Comecemos pela visão dos professores. Sua falta de autocrítica beira o patológico. Apesar dos desastres evidenciados pelo SAEB e testes internacionais, quando a instados a fazer uma auto-avaliação, os professores da rede estadual e municipal se deram nota de 9,13 e 8,78 no quesito domínio dos conteúdos das disciplinas que ensinam. Mais de 85% dos professores alfabetizadores se declararam preparados para alfabetizar. . . . Essa preparação é desmentida pelos fatos: teste sobre conceitos de alfabetização aplicado pelos autores revelou que só 3 de 9 itens apresentados tiveram resposta correta superior a 60%. A média de desempenho foi de 52 (Estaduais) e 50 (Municipais). Um contingente expressivo de professores alfabetizadores acha que a criança pode ser alfabetizada até a 4a. série ou que a idade não é importante (!). . . . Quando perguntados sobre por que os alunos não se alfabetizam ao final da primeira série, eis o que eles respondem: 16% diz que 1a. série não é para alfabetizar (!), 16% diz que é falta de prontidão do aluno e 9,7% (Municipais) e 14,2% (Estaduais) diz que é falta de interesse do aluno (!!). Só 3,5% (Municipais) e 0,9% (Estaduais) dos professores dizem que a culpa pelo fracasso é da escola, que não sabe alfabetizar" (p.191-192 -- os pontos de exclamação estão no original).
"A auto-apreciação chega ao ponto da delusão. . . . Há algo que obviamente não bate. Os professores se acham competentes, bem preparados e esforçados, mas os alunos aprendem menos do que deveriam. Como equacionar esse dilema?
Simples: a culpa é do aluno! Nada menos que 77% dos professores da rede pública culpam o desinteresse do aluno por sua repetência (na particular, 67%). Menos de 6% atribuem a repetência à má qualidade do ensino. . . . É comum professores culpando as precárias condições de vida do alunado por seu insucesso. Esse subterfúgio é risível. Afinal, o papel da educação é justamente de resgatar o aluno da ignorância e desesperança que o circunda. É a ignorância que justifica a educação: se as crianças já nascessem sabendo . . ., não precisaríamos de escola. . . . Outra razão apontada para o nosso triste estado é o desinteresse de nossas crianças. Ora... deve ser alguma coisa na água que bebemos, porque em todo o mundo os adultos costumam ter dor de cabeça justamente pelo excesso de curiosidade das crianças e sua vontade instintiva de aprender, mas as brasileiras são desinteressadas. Talvez o desinteresse seja consequência da baixa qualidade do nosso ensino, e não vice-versa" (pp.193-195).
". . . a incompetência se esconde atrás de uma epistemologia abstrusa para desdenhar a preocupação com o mundo real como [se ela fora] o sintoma de um reducionismo materialista, parte do grande projeto neoliberal para alienação das massas. Segundo os seguidores desse credo, é o 'sistema' que produz a marginalização da criança. Mudanças pontuais -- exigir melhorias de um professor ou uma escola, por exemplo -- são [dentro dessa visão] claramente
inúteis: só o câmbio sistêmico é que trará a solução. Como diz o ditado, nada mais reacionário e imobilista do que condicionar qualquer mudança à mudança total" (p.195).
"A causa [do insucesso de nossas crianças] é que o professor brasileiro médio simplesmente não sabe como ensinar. . . Mas uma admissão como essa seria um golpe fatal à auto-estima de qualquer profissional. Então, culpa-se a criança e/ou sua família -- os elos mais fracos -- ou o 'sistema' -- o inimigo etéreo. Como escreveu magistralmente Simon Schwartzmann, ele próprio um professor de universidade pública, 'Eles [os professores] não sabem muito sobre como ensinar, ou o que ensinar, e, muito freqüentemente, não acham que isso seja muito importante. Na percepção deles, a sociedade é injusta, as pessoas são exploradas, governos não se importam com a educação ou com os professores, e não há muito que possa ser feito antes que aconteça uma revolução ou transformação social verdadeira e profunda'" (p.196).
"É compreensível que os professores assim pensem e ajam. Eu e todo mundo também gostaríamos de atribuir nossos fracassos aos outros. O que, à primeira vista, fica difícil de entender é como é que a sociedade aceita essa incompetência" (p.196).
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