O conceito de Cultura Digital
Cultura digital é um conceito novo. Parte da idéia de que a revolução das tecnologias digitais é, em essência, cultural. O que está implicado aqui é que o uso de tecnologia digital muda os comportamentos. O uso pleno da Internet e do software livre cria fantásticas possibilidades de democratizar os acessos à informação e ao conhecimento, maximizar os potenciais dos bens e serviços culturais, amplificar os valores que formam o nosso repertório comum e, portanto, a nossa cultura, e potencializar também a produção cultural, criando inclusive novas formas de arte.
A tecnologia sempre foi instrumento de inclusão social, mas agora isso adquire novo contorno, não mais como incorporação ao mercado, mas como incorporação à cidadania e ao mercado, garantindo acesso à informação e barateando os custos dos meios de produção multimídia através de ferramentas novas que ampliam o potencial criativo do cidadão.
Somos cidadãos e consumidores, emissores e receptores de saber e informação, seres ao mesmo tempo autônomos e conectados em redes, que são a nova forma de coletividade.
O avanço da tecnologia digital resultou no fenômeno da convergência das tecnologias, que torna possível, por exemplo, que um telefone celular, em si um milagre, possa ser, ao mesmo tempo, uma câmara de fotografia e de vídeo, um computador de bolso com acesso à Internet e um receptor e um emissor de televisão. Um telefone celular caminha para ser uma central multimídia. Um cidadão com um celular pode ser um repórter, produtor de um conteúdo que pode ir ao ar a partir do seu telefone celular.
Os programas de cultura digital visam o uso pleno das novas oportunidades de inclusão digital pelas camadas da população até então excluídas. Trata-se de inclusão cultural, para além da mera alfabetização em informática.
É no universo da cultura, afinal, que vamos encontrar os elementos estratégicos para entender o movimento das sociedades, para requalificar as relações entre as pessoas, para o crescimento e o lugar, no tempo e no espaço, de cada um de nós, e também para projetar novas utopias. Falo aqui da cultura não apenas como o conjunto das expressões artísticas, mas como todo o patrimônio material e simbólico das sociedades, grupos sociais e indivíduos, e suas múltiplas expressões; da cultura como simbologia, como cidadania e como economia.
E a cultura digital potencializa tudo isso, apontando para um grau de desenvolvimento inédito para a humanidade.
Quando se fala em cultura e desenvolvimento, portanto, a pressuposição mais importante é a de que o próprio desenvolvimento é um conceito que se forma dentro de determinado ambiente cultural, e que se modifica ao longo do tempo, sendo, portanto, necessariamente cultural. Decifra-me ou te devoro, diria a esfíngie imaginária da cultura para um economista ou um político. Se não levarmos em conta a cultura ao pensar os projetos de desenvolvimento, corremos o risco de perder de vista a estrela-guia, atarefados que estaremos com as pedras do caminho. Assim como o desenvolvimento é cultural, a cultura é uma, talvez a principal, de suas dimensões, fornecendo régua e compasso a seus propulsores.
Cultura e desenvolvimento são conceitos e processos necessariamente interligados e compartilhados. Não podemos conceber desenvolvimento que não seja cultural. E não devemos conceber desenvolvimento que não seja compartilhado.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem define claramente os direitos culturais como parte dos direitos humanos fundamentais, dos quais somos zeladores. Também inclui o direito ao desenvolvimento.
Isso significa o reconhecimento global de que cada sociedade, grupo social e indivíduo tem um patrimônio cultural singular, que reflete um sistema de valores e um modo de viver próprio, a partir do qual se dá a sua identidade.
Significa também o reconhecimento de que as identidades culturais existem no diálogo com as demais, e dependem desse diálogo para sobreviver. Significa o reconhecimento de que a promoção da identidade e da diversidade cultural e do convívio tolerante entre sociedades, grupos sociais e indivíduos é vital para a democracia e está entre os deveres básicos dos governos. Significa, ainda, o reconhecimento de que a cultura é, ao mesmo tempo, uma das dimensões do desenvolvimento humano, seu ponto de partida e de chegada. Significa, finalmente, que o crescimento econômico e o comércio devem ser cultural e ambientalmente sustentáveis.
Fonte: Discurso de Gilberto Gil na Aula Magna da Cidade do Conhecimento em 2004 proferida sobre o tema “Cultura Digital e Desenvolvimento” (adaptado).
Para ler na íntegra clique aqui
Escrito por João José Saraiva da Fonseca às 11h30
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